O alicerce da personalidade infantil

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Tenho ouvido muita gente dizendo as seguintes frases: “A geração atual não tem limites”; “As crianças de hoje são rebeldes demais”; “Na minha época não era assim” … De fato, no passado existiram formas de representação de autoridade na família bem mais definidas que atualmente, tanto pela figura materna como pela paterna. Faço referência à época do matriarcado e posteriormente do patriarcado.

Hoje, estamos no período considerado como Filiarcado. A geração de filhos que querem, indevidamente, ocupar o lugar de autoridade que pertence aos pais, que por sua vez, agora, sentem dificuldades em impor limites aos pequenos.

A razão disso advém de causas variadas, mas aqui, vamos nos deter em apenas uma: A falta de tempo. Muitos pais atualmente tem menos tempo disponível para os filhos, o que tem costumeiramente gerado sentimento de culpa. Para compensar a ausência, agem de forma extremamente permissiva resistindo em dizer ‘não’ quando se faz necessário. Eles se queixam do comportamento dos filhos, questionam sobre a dificuldade para impor limites, e reconhecem a falta de apropriação da autoridade.

Em contrapartida, vivem uma cobrança excessiva para não falhar na “educação dos filhos” e na tentativa de suprir a falta, vão indenizando as crianças, levando para Disneylândia, comprando presentes caros (como se criança entendesse de valor monetário), pagando aulas extras de inglês, judô, balé, natação, terapia, reforço e muito mais, se esforçando para proporcionar o melhor que podem.

Nesse ritmo de rotina exaustiva de trabalho dos pais, e da agenda lotada de atividade dos filhos, quando a família dispõe de um tempo junto e a criança começa logo apresentando seus impulsos infantis (o que é natural), os pais evitam frustrar e logo pensam: “Não posso bancar o (a) chato (a), se fico o dia todo longe”. É importante saber que a frustração é um elemento fundamental na formação da personalidade, e através dela podemos reconhecer o limite do outro e esse processo também ajuda no autoconhecimento, onde a criança vai aprendendo sobre o sentimento das pessoas ao seu redor.

A ausência desse limite, resulta muitas vezes, num comportamento irritadiço das crianças que também se sentem angustiadas, e descontroladas emocionalmente, tendo ataques de raiva e negação em aceitar os limites, desrespeitando as referências de autoridade, o que repercute durante toda a vida.

Para Maria Irene Maluf (Revista Psique, 2012) “ quem foi acostumado a fazer o que quis e sempre teve tudo o que desejou, não aprendeu a postergar, esperar e suportar um “não” eventual ou definitivo e, assim, continuará a só conhecer os seus direitos, mas não saberá como fazer para exercer seus deveres”.

Por isso, costumo comparar o desenvolvimento infantil ao início da edificação de uma casa, onde a base sempre será fundamental para a sustentação de todo o resto da construção. Dizer ‘não’ quando necessário também é uma forma de amar, embora pareça o contrário.

É somente através do ‘não’ que a criança aprenderá a conviver em sociedade de modo saudável, isso promove o amadurecimento e consequentemente a tolerância necessária para suportar os ‘nãos’ que vida oferece sem se desestruturar emocionalmente.

“Ensina a criança no caminho em que deve andar e ainda quando for velho não se desviará dele”. Provérbios 22:6

Guadalupy Oliveira – Psicóloga

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